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Da porteira para fora (50p) – Jornal Tribuna Liberal de 13/05/2018 – A Travessia 1.

Travessia

Já se vão alguns anos que os compositores Fernando Brant e Milton Nascimento nos brindaram com a música Travessia e em um de seus versos eles nos conduzem de um estágio emocional de perda a outro de esperança; ..Eu não quero mais a morte // Tenho muito que viver // Vou querer amar de novo // E se não der não vou sofrer

Hiker and dog crossing wooden bridge on the cloudy day

A canção Morro Velho

Na triste canção Morro Velho, Milton Nascimento escreveu:

Filho do senhor vai embora, tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante
Não esqueça, amigo, eu vou voltar, some longe o trenzinho ao deus-dará

Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha prá apresentar
Linda como a luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada, já não brinca, mas trabalha.

 

Da cidade para a periferia ou da periferia para a cidade.

A travessia pode ser de um desamor para uma nova aventura amorosa, pode ser de um ambiente social de fartura para a carência, pode ser a saída da periferia para a conquista do asfalto, o caminho inverso a saída da cidade grande para a periferia, da função de tarefeiro para a liderança, etc… O reconhecimento de nossos governantes da necessidade de apoio à pequena e média empresa para geração de empregos e renda é uma maneira de travessia.

 

Ficar onde está pode ser uma travessia?

Às vezes sim, e é igualmente complexa, a frase: Eu não quero mudar do Brasil, eu quero que o Brasil mude. (Dra Cármen Lúcia), enseja uma ideia forte de luta, reconhece o momento político pelo qual passamos, e onde estamos em relação aos países desenvolvidos, e a gana de mudar o “status quo”.

 

A periferia, grosso modo, se forma com a chegada das primeiras residências e depois aos poucos, devagarzinho, vai chegando a infra do poder público. Consequência: bairros mal planejados e carências.

 

Muitos moradores locais da periferia detestam o lugar onde moram, outros são indiferentes, outros buscam experiências “mais enriquecedoras” fora da periferia e se conseguem, o seu local de origem se torna um dormitório de almas noturnas. Esses que fazem a travessia entre a periferia e a cidade grande parte perdem a identificação com o local de nascimento, tudo se torna estranho, migram para o limbo, essas pessoas vivem num purgatório, nem atingem o céu, nem atingem o inferno.

 

O que nos interessa aqui são as pessoas que não fazem a travessia, essa gente que se orgulha de morar na periferia, bradam firme o nome do bairro onde vivem, criam seu próprio estilo de vida, sua marca, seus produtos, seus serviços, e seus propósitos. Essa gente valorosa cria sua música, sua arte, e não raro caminham com camisetas estampadas com o nome de seu bairro no peito. Hoje, por coincidência um desses personagens me disse: Essa árvore que você me aponta, lá no meu bairro,  tem outro nome.

 

Mahatma Gandhi

Ele executou um movimento revolucionário tecendo suas próprias roupas num tear doméstico e queimando jeans. E fez a travessia para a independência. Hoje, os indianos estão longe do nível de vida de seus antigos dominadores ingleses, mas exportam tecnologia e nesta estrada estão deixando os brasileiros comendo poeira.

 

 

Quem pode nos ajudar na travessia?

A internet, a indústria 4.0, a inteligência artificial, as novas regras para o trabalho móvel, irão encurtar as distâncias, irão corroborar para resolver esse dilema: Sair de onde se nasceu? Fazer ou não a travessia? Vale a pena?

 

As escolas locais devem exercer um papel fundamental na fixação do jovem no seu local de nascimento, ela pode e deve jogar luzes neste ambiente, elucidando a história do local, o contexto mundial, alimentando o vírus “vamos fazer” e dando-lhe vida longa.

 

 

O Pateta nacional.

Países que ora são potências mundiais são aqueles que souberam dar um passinho à frente em relação a seus pares, ficaram, lutaram e colhem os frutos de sua política “vamos fazer” e vendem seus produtos e serviços para os países mais “acomodados”, e se esses “acomodados” reclamam de os produtos e de os serviços, eles os aprimoram, corrigem os erros, e continuam vendendo novas versões. Muitos desses países terminaram a II Guerra Mundial sob escombros. E, hoje, quantos de nós não sonhamos com uma Mercedes alemã, ou em passeios por jardins com designs e paisagens paradisíacas japonesas? No entanto, continuamos deixando o Brasil para ir ver e fazer “selfie” com o Pateta na América do Norte.

Ao infinito e além.

Sabemos que a geração “nem, nem” entre jovens é significativa, e as meninas superam os rapazes em números, já que são forçadas ao trabalho doméstico desde cedo. Construímos grande parte de uma sociedade cuja meta é sobreviver, e estão longe do ir além.  Não levantam pela manhã e encaram o dia como um aprendizado para fazer melhor do que no  dia anterior, “Karpe Diem”.

 

A travessia pode significar não ir ao infinito, e sim, lutar, construir, fabricar com orgulho a camiseta: “Eu amo esse chão”, votar corretamente, apoiar leis que incentivem a pequena e média empresa a contratarem jovens aprendizes, escolas e famílias que caminham de mãos dadas com os jovens.  Dar o primeiro passo para essa travessia é a etapa mais difícil.

 

Esperteza.

Não é preciso ser “esperto”, como dizia Albert Einstein: Não é que eu sou tão esperto, é que apenas eu fico com os problemas por mais tempo.

 

O poema “Still I Rise” – “Ainda assim eu me levanto” da ativista Maya Angelou, cuja tradução pode ser facilmente encontrada na Internet mostra-nos um pouco dessa resiliência. Ela nos inspira a fazer a travessia. Ou, Marielle Franco, socióloga, feminista, militante dos direitos humanos, política brasileira, da cidade do Rio de Janeiro,  “cria da Maré” e assassinada em 14 de março de 2018. Deu à luz a uma menina e no mesmo ano matriculou-se no pré-vestibular disponível no Complexo da Maré. Ou Celso Atayde, ativista social brasileiro especializado em favelas e periferias. Criado na favela do Sapo – RJ, autodidata, é fundador da CUFA – Central Única das Favelas, já presente em mais de 15 países.

 

O Brasil precisa fazer a travessia mas não podemos ser ingênuos, temos que lutar por aquilo que é possível diante da situação que se apresenta. Exemplo, será ingênuo lutar por reformas políticas hoje (embora tenhamos avançado) se quem as aprova não tem o menor interesse. Mas, podemos lutar para que o atual congresso aprove reformas políticas que serão duras para os próximos governantes e não para esses que estão aí. O populismo resolve o problema do desemprego com discurso, então, a travessia será lenta. (Continua na próxima semana).

 

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